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Alma Feminina

ENTREVISTA com Clara Maria Rita Trussardi Magalhães
por Anna Gabriela Malta

Clara Maria Rita Trussardi Magalhães. Empresária, casada com Thomaz há 30 anos, 2 filhos, catequista. Esse breve perfil não dá conta da mulher extraordinária que é. Casou-se com 21 anos, com muitos sonhos a serem realizados. Deus tinha outros planos e uma missão para essa filha forte. A missão: levar luz e alegria a todos a sua volta, começando em sua própria casa. Ser testemunha da glória de Deus. Aqui ela divide um pouco do que aprendeu no caminho percorrido, do segredo para um longo casamento e claro, um pouco da sua alegria de viver. Essa conversa é uma lição de amor e fé, com direito a música do rei Roberto Carlos.

Clara, você vem de uma família muito religiosa, bem constituída, em que a fé sempre esteve presente, e por isso mesmo sempre foram exemplos. Como é lidar com essa visibilidade e também de uma certa forma com essa responsabilidade?

O meu nome é Clara Maria Rita. Quando eu estava para nascer a minha mãe disse que pensou que queria que a filha fosse uma luz para o mundo, e que tivesse a intercessão de Nossa Senhora - assim eu e as minhas 7 irmãs, bem como todas as minhas sobrinhas, temos Maria no nome. Eu digo que não somos marcadas na mão, mas no coração com a intercessão dessa Mãe das mães. A mãe da Terra pode muitas vezes falhar, mas a mãe do Céu não falha nunca. O meu parto estava muito difícil, e era dia 22, então minha mãe disse que se fosse normal, colocaria o nome de Rita também. O meu nome ficou Clara Maria Rita, porque eu nascei de parto normal e correu tudo bem. Eu cresci acreditando nessa intercessão divina na minha família e na minha vida. Eu vi que nas horas de alegria, a força divina comemorava junto, e nas horas difíceis, era onde a gente se unia, superava e enfrentava o momento com dignidade e com fé. Na vida eu aprendi que não há quem não passe por ela sem ter problemas, mas quando a gente pensa e coloca o problema na mão de quem resolve o problema, a gente administra de uma forma diferente. O meu pai sempre dizia: “Faça tudo como se tudo dependesse de você e confia porque tudo depende de Deus”. Minha mãe já dizia “mãe de joelhos, filhos em pé; filhos de joelho, pais em pé”. Então a gente sabia da força da oração. Eu crescia acreditando. Eu acho que mais que palavras, os exemplos arrastam. No dia-a-dia da nossa família eu via que por mais que tivéssemos problemas, tivéssemos situações difíceis, não perdíamos a alegria da alma, a alegria da nossa união, a alegria de cada um superar e vencer o que estava passando. Você pode imaginar em uma família de 10 filhos, a toda hora tem várias coisas acontecendo. É namoro, é noivado, é casamento, é dificuldade financeira, é doença - a gente via que a cada hora estávamos enfrentando uma situação diferente e com fé a gente venceria. E foi nesse espírito que eu pensei em me casar. E não com vontade de ter uma casa, ter independência, mas de formar um lar como eu via na minha casa, com valores que sempre foram presentes entre nós: a fé, o amor ao próximo e com muito valor a família. Eu acho que a maior instituição que alguém pode construir é uma família. Isso não tem dinheiro que compre. Eu vi no Thomaz tudo isso, apesar dele ter tido muitas dificuldades em sua criação, porque a família tinha alguns casos de casamentos que não iam para frente – eu não estou aqui criticando. E, às vezes, nos vemos que a força interior que existe dentro de cada um de nós não é exercitada, fazendo com que a gente não consiga enfrentar, pela fraqueza humana, as tantas batalhas que temos no dia-a-dia no relacionamento a dois, que são muitas.

CONTE-NOS UM POUQUINHO SOBRE VOCÊ E SUA HISTÓRIA

A estrutura da família tem que estar muito forte para você superar os desafios e, logo que eu me casei, eu achei que junto com ele íamos romper a barreira dos casamentos desfeitos. Eu achava que ia dar para o Thomaz a família que ele sempre sonhou. Uma família que ele sonhava, mas não acreditava. Eu acho que, pelos valores, pelo que ele vivenciou junto a minha família, ele sonhava com isso. Ele conheceu meus irmãos pequeninos, ele me ajudava a cuidar deles, até porque eu só podia sair com ele de vela, então tinha sempre um com a gente. Ele começou achar uma delícia. Então, em vez de ir para boate, o programa era ficar em casa, sair com os meus irmãozinhos, dividir a batata-frita. Era dividir o amor. Compartilhar esse laço de família que não tem preço. Os amigos começaram a perguntar o que tinha acontecido com ele, que ele não estava mais na noite - ele era o rei da noite. E eu a ter as minhas dúvidas - aí meu Deus, será que eu vou conseguir mudar essa cara? Dentro da casa da família, ele não sentia vontade de ficar, ele se sentia muito só. Aí logo que nos casamos aconteceram alguns problemas. A irmã dele se suicidou na frente dele, então, por mais que nós estivéssemos maravilhosamente bem, ele conviveu com um abalo que eu disse: Meu Deus, como eu vou curar esse trauma da vida dele?

Nós tínhamos 21 e 24 anos, respectivamente. Um ano e meio depois do casamento teve esse acontecimento. Ele era louco pela irmã e foi na frente dele. Foi uma coisa que abalou muito a ele e ao nosso casamento. Ele ficava noites e noites sem dormir, e eu sem saber como resolver esse trauma. Ele tinha começado a entender o que era ter fé, ele estava vendo vários fatos na minha família, mas ainda não tinha o suficiente. Várias vezes eu me ajoelhava no banheiro para rezar, eu estava sozinha quando vim morar no Rio. A minha família estava quase toda em São Paulo, com exceção da minha irmã. Eu não queria deixar a minha mãe mais preocupada, eu imagino o que ela devia sofrer sabendo que a filha estava passando por problemas. Eu aprendi a me ajoelhar e a me entregar. A confiar que a misericórdia divina fosse fazer alguma coisa. Eu não sabia como tirar o trauma dele, eu não sabia o que fazer. Eu via ele sem dormir a noite, acordando com susto. Ele via a cena horrorosa, e eu dizia: Thomaz confia. E ele respondia que não dava para acreditar, porque a cena não saía da cabeça dele. Era impossível dormir. Por mais que ele me amasse, que estivéssemos no início do casamento, já com um filhinho pequeno, porque logo que eu me casei, engravidei, e tive o Thomaz, que foi uma grande alegria, me dando força para morar aqui no Rio, foi um momento delicado. Eu dizia para o Thomaz que a Misericórdia Divina ia dar um sinal para ele. Eu aprendi a nunca perguntar o por quê? As coisas de Deus são maravilhosas, as coisas que acontecem por consequência do homem, você não pode controlar. Mas eu sei que a Misericórdia de Deus transforma. Mas dizer isso para um homem que estava sofrido, abalado, que não tinha fé, era complicado. Nem eu mesmo sabia como ele ia entender isso. Para mim era difícil entender esse trauma também, mas eu acreditava em uma coisa impossível. Foi quando eu notei que comecei a ficar enjoada, enjoada, achei que era sistema nervoso e para minha surpresa eu estava grávida. Não imaginei que estaria grávida numa época dessas. Eu falava para ele - quem tem fé não cultiva a morte, cultiva a vida. Talvez essa criancinha, que eu estava gerando fosse para que ele acreditasse nesse Deus que é vitorioso. Foi impressionante, porque eu tinha tido o meu primeiro filho de parto normal e o Thomaz só falou assim - se essa criança for o sinal de Deus, tem que ser parto normal. E você sabe, tudo mundo sabe, isso a gente não controla. E de repente começou a atrasar o meu parto, começaram a ficar preocupados com o meu parto, e eu pedi um sinal a Nossa Senhora. Eu fui até o toalete, e na hora eu recebi um sinal que era para ir para a maternidade. E quando eu cheguei lá, a médica informou que estava caminhando para um parto normal. É a Chiara. A minha filha nasceu no dia 26 de setembro, 9 meses depois do falecimento da minha cunhada. Eu gerei vida. Essa menina foi uma luz. E eu dei o meu nome a ela. Ela vai ser uma luz, vai ter a intercessão de Nossa Senhora e vai acreditar em Santa Rita dos impossíveis, para ela interceder e fazer o impossível, principalmente para fazer o impossível na vida do pai. Essa menina sempre foi uma alegria. Meus dois filhos, eu só tenho que agradecer a Deus. Eles estão hoje, respectivamente com 29 e 27 anos. Aí foram se passando os anos. Logo que a gente superou isso, o Thomaz teve mais dois baques muito fortes, porque um dos tios também se suicidou com remédio de rato, e um mês depois o meu sogro também. Quando estávamos superando aquela dor, vem mais esses abalos. Isso sempre gerava um conflito entre a fé e a dor dos problemas da realidade. Ele começou a compreender que por mais que ele estivesse sofrendo, sempre vinha uma luz para mostrar - Eu estou com você meu filho, eu estou com a sua mulher. A sua mulher está de joelhos por você. Ele via na minha alegria, na minha vontade de fazer ele feliz, nas crianças que desde pequenininhas faziam tudo par alegrar o pai. Eu dizia para elas - papai precisa da gente, mamãe precisa ajudar o papai a superar isso. E sempre dizia para não perguntarem por quê, mas para que. Até que quando ele já estava muito bem. começamos a viajar junto para as competições de hipismo. Ele levava os filhos com o maior orgulho. Ele que não tinha esse espírito de família, pegava e carregava as crianças para todos os lados. As crianças ficaram conhecidas como o príncipe e a princesinha dos campeonatos. Eu não largava o Thomaz para nada. Eu sabia que ele tinha tido depressão muito forte, e para superar esses acontecimentos foi muito difícil, porque foram traumas muito fortes. A gente estava tirando a cabeça para fora, e de repente o mal vinha para desestruturar. Eu sentia isso nitidamente, tanto que eu dizia - nada, nem ninguém vai tirar a nossa fé, a nossa alegria, a nossa família, Thomaz. Você tem aquela semente de casamentos não deram certo, e parece que o mal quer isso. Ele ficava nervoso, desestruturado, então eu percebi o quanto valeu a estrutura que eu recebi em casa, desde pequena. O maior exercício que a gente não mede é a paciência. É você acreditar no impossível. Quando tudo parece preto, meu Deus obrigada. A cada minuto, eu agradecia pela criação que eu tive, porque é a minha solução. Mas eu falo que isso é um exercício diário. Eu até comecei a rezar o terço. A minha mãe sempre perguntava se eu estava rezando o terço. Logo quando eu casei eu respondia - Mamãe eu não tenho tempo! Só com um filho e ela com 10. É uma vergonha (ela diz isso rindo). Eu comecei a rezar o terço e ir a missa todos os dias. Eu dizia como é que vou salvar o meu marido, que armas podem me fazer ficar em pé. Eu, uma garota na época, não queria sobrecarregar a minha mãe que morava em São Paulo, nem meu pai, nem a minha irmã, a única que morava no Rio, com quem eu ia dividir? Eu dividi com a pessoa mais importante, que carrega a gente no colo na hora que a gente pensa que está tudo perdido. A presença de Deus e de Nossa Senhora me carregando no colo para eu poder continuar. Eu pedia que Deus me usasse para salvar o meu marido. Eu aprendi uma frase - “Não diga para Deus que você está com um grande problema, diga ao problema que você tem um grande Deus”. As frases são muito bonitas, mas quando você está passando uma fase complicada, é muito difícil. É um trabalho diário exercer a fé. Eu via que quando eu estava sem fôlego, de repente eu ganhava força. Eu não podia deixar meus filhos me verem tristes, o Thomaz não podia me ver triste. Eu precisava da minha alegria, senão, tudo desmoronava. Quando você não dá chance de achar que está com problema, você faz o outro feliz e vence o seu próprio problema. Então isso é uma arte, uma sabedoria. Meu Deus, eu não vou ter pena de mim, use de mim para fazer os seus planos. E quando a gente estava decolando para uma vida de sonhos, eu me lembro que o Thomaz brincava muito comigo, dizendo que só ia parar quando ficasse paralítico. Uma vez na Comunidade Emanuel eu li o livro A Vitória pela Palavra, que fala exatamente sobre isso. Eu falava para o Thomaz falar só palavras abençoadas. Quando ele caiu do cavalo e eu vi que ele tinha ficado paralítico eu pensei - Meu Deus do Céu! Parece que atrai. É por isso que eu falo para usarmos “você vai ser muito feliz; você é muito abençoado, nós vamos conseguir”. Que a gente exercite falar coisas boas e abençoar os outros. E mais uma vez eu dizia para ele não vamos perguntar o por quê, mas o para quê. Eu até conversei com ele antes dele entrar na pista – “Vamos para casa, não volta de novo. Você já fez essa pista, deixa de ser perfeccionista.” Ele sempre foi um cara que aceitou os desafios, mas ele entrou novamente. Eu estava entrando no carro com meus filhos quando escuto “ambulância, ferido caído na pista”. Eu disse para os meus filhos começarem a rezar porque era o papai. Só ele estava na pista. Aí começamos uma nova etapa, porque eu falei para o Thomaz que ele tinha que acreditar que isso era uma missão. Uma vez um padre falou que ele teria uma grande missão e na hora da queda ele ouviu a voz desse padre, mas do mesmo jeito que ele ouviu, a voz foi embora porque ele não estava acreditando no que estava acontecendo. Ele entrou em desespero total, porque quando falaram que o caso dele era irremediável, todos os sonhos dele foram por água abaixo. Ele pensou como homem, que não ia poder trabalhar; como marido, que a mulher não ia querer nada com ele; pensou nos filhos, que teriam vergonha dele, de ter um pai que não pode fazer nada, que não consegue nem sair da cama. Ele pensou para o que ele ia servir. Para sair da cama para a cadeira, ele tinha que ser retirado com um equipamento tipo macaco de carro. Era colocada uma rede por baixo dele e depois ele era suspenso para ser colocado numa cadeira, onde ele era amarrado com uma faixa. Ele tinha perdido completamente o equilíbrio. Nessa época eu dizia para ele - Thomaz eu não casei com o seu corpo, eu casei com o homem que existe dentro de você. Um homem que sempre aceitou desafios. Infelizmente, Deus não queria que acontecesse isso, mas eu tenho certeza de que Ele vai usar de um homem que era atleta, que andava de bicicleta todos os dias, que ia correndo para hípica, montava 3 cavalos, trabalhava o dia inteiro, corria na Lagoa, um cara que passou por problemas na infância, na juventude, mas foi superando, superando. É esse cara que conta. E não um cara que não quer nada com nada. As pessoas vão estar com o foco em você. Se você se deixar usar, Deus vai fazer maravilhas na sua vida. Eu sei que é muito difícil. E foi. Muito difícil. A depressão batia na porta querendo colocar ele para baixo, várias vezes ele me dizia que estava se sentindo no fundo do poço. A vontade dele era só de morrer. Porque ele queria usar da morte dele, para me deixar livre. Ele pensava assim: a minha mulher vai ficar comigo por pena, meus filhos vão ficar com pena de mim. E eu não vou servir para nada. Vou ser uma mala sem alça para todo mundo. Mas isso é quando a cabeça não tem esperança. Quando não tem esperança é porque não tem fé. É quando você não tem fé, não tem nada. O meu filho escreveu para ele: “Pai, agora é hora de você na pista da vida sair zerando” (zerar uma pista, é o termo técnico das provas de hipismo quando o conjunto cavaleiro e cavalo não fazem falta nenhuma). As crianças nessa época tinham 11 e 9 anos. Já entendiam a gravidade da situação, ficavam olhando o que estava acontecendo. O pai mal olhava para eles.

Quando o Tomás sofreu o acidente, vocês dois eram muito novos. Vocês tinham quantos anos? Como foi esse período de adaptação a uma nova realidade? Muitos de nós, na primeira dificuldade que encontramos abandonamos a fé, ou por falta desta ou por revolta. Não entendemos, e muitas vezes não aceitamos como uma pessoa pode ser de Deus, trabalhar por Ele, e algo ruim acontecer a ela. Como você lidou com o acidente e a sua fé?

Eu me lembro do primeiro dia em que ele foi dormir em casa, a casa estava cheia de recados e cartazes das crianças – “Pai, nós precisamos de você”, mas ele nem olhou. Ele não olhava as placas. Ele só olhava para si. Ele não acreditava que alguém podia estar precisando dele, ele estava se achando um lixo. Em um dos momentos em que ele se sintia assim, eu disse: “Nós não somos corpo, somos muito mais do que isso. Somos alma. Deus precisa de você e nós também. Você é o meu marido e pai dos meus filhos. Eu não vou arrumar um pai substituto para eles.” Ele sempre dizia que eu era jovem, que teria diversos homens interessados. Mas para mim nenhum deles seria ele, nenhum deles era o pai dos nossos filhos. Até que um dia ele começou a ver os filhos entrando no quarto – as crianças iam todos os dias visitar o pai no hospital, e quando começavam a chorar saiam correndo para o pai não ver, quando ele se deu conta disso, que já tinha se passado tantas e tantas vezes, e ele disse: “que covarde que eu estou sendo, eu estou fazendo dois toquinhos chorarem por minha causa.” Aí ele chamou as crianças de volta. E quando os meninos entraram enxugando os olhos, dizendo que tinha entrado um cisco nos olhos, ele percebeu o quanto as crianças precisavam dele e dividiu a verdades com eles, dizendo que não sabia quando ia ficar bom, mas prometia que eles iam ser muito felizes.

O tempo inteiro eu pedia que Nossa Senhora desse um sinal para ele. Que ele começasse a sentir o sinal, mas a força do mal quer sempre esmagar a força divina. Mas eu nunca deixei de acreditar. E é isso que é a nossa maior arma. Eu me entrego, mesmo não sabendo como, eu me entrego, eu confio e espero. E foi assim que eu comecei a passar isso para o Thomaz. Eu me lembro, um dia eu comprei um filme para a aulinha das crianças de catecismo e coloquei para distrair ele. Eu não sabia mais o que fazer para distrair ele em um hospital nos EUA, eu cantava, eu tentava fazer de tudo para alegrá-lo. Comprava doce, que ele adorava, e ele não comia o doce, eu queria levar roupas, mas ele não queria nem saber. Tinha perdido o prazer de se arrumar. Era difícil trocar de roupa. Para aprender a colocar uma meia demorava 45 minutos. Tudo era uma grande dificuldade. Tudo ele precisava pensar antes, administrar como ia ser feito para conseguir. Por exemplo: para sair da cama, ele tinha que pensar em todas as etapas, aonde ia segurar, era uma questão técnica, não é como nós que queremos levantar da cama e simplesmente levantamos. Tinha que pensar na distância da cama para a cadeira. Quantas vezes ele tentou passar e caía. Pentear o cabelo, tinha que pensar que uma das mãos ia para o cabelo, a outra tinha que segurar na cadeira para firmar o corpo. Tudo era muito pensado. Isso cansa a pessoa emocional e psicologicamente. Voltando ao filme que era sobre Tomé, tem uma cena em que Jesus aparece para os apóstolos e um deles não estava, que era Tomé, que por sua vez, não acreditou. Eu brinquei dizendo tá vendo Thomaz, até Tomé não acreditou. E quando Jesus aparece para Tomé, no filme que era americano, ele diz: Thomas, why don’t you believe? (Tomé, porque não acredita?) Nós dois paramos. Feliz aquele que acredita sem ver. Thomaz começou a chorar. Era como se Jesus tivesse entrado na tela para falar com ele. Eu nunca soube que Tomé em inglês era Thomaz. Ele foi sentindo os sinais aos poucos. Um dos mais fortes foi quando minha mãe foi me visitar nos EUA. Ela largou 9 filhos para ir ficar comigo. Eu dormi 3 meses no hospital e minha família e os amigos mais chegados fizeram um revezamento para ficarem com os meus filhos, porque eu nunca mais tinha dormido em casa. Eles ficavam em um apartamento que eu tinha alugado, porque eu também não queria ficar longe deles. Só que o Thomaz não me deixava ficar longe, então eu consegui uma autorização do hospital para ficar lá, porque eles viram a nossa união. Muitas vezes, ele só dormia quando estava de mão dada comigo. Ele precisava daquela mão, da força, da coragem para conseguir dormir. Ele tinha até medo de dormir pensando em acordar no dia seguinte e enfrentar tudo o que ele tinha de enfrentar. Um dia, eu me lembro que parecia que o tempo não passava. Parecia que o tempo demorava horas e horas. Nesse dia a minha mãe foi visitá-lo, e viu que ele estava cada dia mais magro, o olhar mais abatido, a cada dia que reação situação que ele estava passando era pior. A própria médica disse que o próximo suicida era ele. Eu dizia que em nome de Jesus não ia ser. Deus me colocou ao lado dele, e ia usar da minha pessoa para salvá-lo para ele ser sua testemunha. Mas ele pensava exatamente nisso e eu sabia. Eu acordava e só pedia a Deus que me desse a alegria de que no dia que o meu marido morresse, morresse de morte natural. Que nada tirasse a fé dos olhos de quem nos via. Eu queria o contrário. Que as pessoas quando olhassem para gente pensassem que vale a pena ter fé, nenhum sofrimento pode ser maior que a alegria que Deus nos dá e a paz. E foi assim que um dia minha mãe foi no hospital e viu como o Thomaz estava, e deu para ele escolher uma passagem na bíblia. Eu me perguntei como eu não tinha tido essa ideia antes, mas mãe é mãe. Ele logo pensou que a sogra estava louca, ela sabia que ele nunca lia bíblia e ela querendo que ele lesse a bíblia naquela hora, quando ele queria morrer. Mas ele diz que a minha mãe é que plantou a sementinha da fé nele e eu fui a jardineira. Quando ele abriu viu uma palavra em negrito - paciência. E como se fosse aquela cortina negra que estava na frente dele, que não deixava ele enxergar nada, aquele muro que não dava perspectiva para nada, ele percebeu que era isso que estava faltando nele. Ele tinha perdido a paciência. Até São Paulo fala, quem tem paciência se torna perseverante, e a pessoa perseverante vai tendo esperança, e com a esperança você tem fé e com a fé você chega a Deus, e com Deus você pode tudo. A partir desse dia parece que a mão divina foi puxando ele, e a cada dia ele ficava mais animado. Essa palavra paciência fez ele acreditar que o impossível era possível. Um dos sinais que ele brinca que era impossível era calçar uma meia no pé, eram dias e dias, ele caía, e a fisioterapeuta insistindo. Ele queria se trocar, a gente que está no corre-corre do dia-a-dia não dá valor para as coisas simples como se trocar, de poder fazer as coisas independentemente. Óbvio que todos somos independentes, de uma forma ou de outra, mas que a gente se sente dependente de Deus e da intercessão de Nossa Senhora porque com eles a gente consegue tudo! Nesse dia, depois de horas e horas, ele consegue pôr a meia no pé a perna para cima. Ele brincou que com 45 minutos para uma meia, 45 minutos para outra, mais tantos outros minutos para calça, cueca, camisa... bom na hora em que ele estiver pronto, era hora de tirar tudo de novo. Ele acreditou. Ele queria mostrar para tudo mundo. Ele tinha ganho uma batalha. Ele começava a ver um foco de luz, de esperança. Uma vez, uma pessoa tinha dito para ele dar um tempo. Que as vezes são 24 horas na escuridão, na tristeza, depois são 23 horas e meia, depois 22 e assim por diante. A cada dia vai sendo recuperado um momento de alegria que foi deixado ser coberto pela tristeza. Uma coisa que eu sempre falei para o Thomaz: “quando a vida nos der mil motivos para chorar, vamos arranjar mil motivos para sorrir.” Ele foi cada dia crescendo, com altos e baixos, diariamente. Eu passei a contar agora o Thomaz passou um dia sem ficar triste, agora foram dois, agora uma semana! Era muita instabilidade. Eu contava os dias que ele não tinha depressão. Mas ele começou a se agarrar a Nossa Senhora. Quando ele via aquela imagem da Nossa Senhora esmagando a serpente do mal, ela dizia que ela ia esmagar a serpente da depressão na vida dele, da tristeza... e ele sabia que tinha recebido um carinho muito grande de Nossa Senhora de Fátima ainda no hospital que foi visitá-lo, como que dizendo que ele era filho dela, que ela precisava dele. Ele começou a rezar o terço. A primeira vez que ele rezou o terço foi pedindo para ele morrer, nesse dia que ele pediu para morrer, ela deu o sinal para ele viver. Só que a gente sabe que no dia-a-dia a gente vive entre o conflito de optar pelo bem ou pelo mal. O tempo inteiro até você ter mais força que o mal. É o dia-a-dia. Não adianta querer comparar problemas de uma pessoa com o de outra. O pior sentimento que podemos ter quando estamos passando por alguma dificuldade é ter dó de si. Ter dó de quem está do seu lado. Um dia, o Thomaz conversando com a Chiara, perguntou o que ela achou daquele filme a “Vida é bela” e ela disse que tinha achado o máximo. Depois ele perguntou qual o trauma que ela tinha ficado quando viu o pai tão triste, sem ser pai? Ela respondeu que não tinha ficado com trauma nenhum, que eu tinha dito para eles que o pai era um vencedor, e que nós tínhamos que ajudar a ele a ganhar. Então ela sentia que estava numa corrida para vitória dele. Ela só tinha orgulho. Ele mesmo quase caiu da cama nesse dia. Porque ele levava nas costas que ele podia ter fracassado. Quando ela estava perto de casar, ele pensava que podia ter feito mais pela filha, podia ter amado mais, abraçado mais, e por causa de depressão, tinha perdido momentos que não voltam mais. Deus é tão maravilhoso, que usou desses momentos difíceis para criar uma filha e um filho guerreiros, acreditando nessa Misericórdia Divina, na intercessão da Nossa Senhora e a gente até brinca: confiar, entregar e esperar. São palavras difíceis, mas funcionam.

Você como esposa e mãe, exerceu um papel fundamental para o equilíbrio da família, e de cada um individualmente. Conte-nos um pouco da sua experiência do que aprendeu nesse caminho.

Uma vez a minha filha me perguntou como eu podia ter tanta paciência. Paciência adquiri-se, e quando se ama você renuncia por prazer. Minha mãe falava das mães de joelhos, filhos em pé; e eu digo mulheres de joelhos, maridos em pé. E para os meus filhos dizia - podem ficar de joelhos para o seu pai ficar em pé. E não fiquem achando que são prejudicados, são privilegiados de estarem vivendo um momento difícil, por entenderem que o maior desafio na vida, o maior esporte é saber viver. A vida é bela para quem a faz bela. Depende de como você conta a sua história, ela vai ser linda ou vai ser horrorosa. Eu sempre disse a eles para fazermos que a nossa história seja linda, maravilhosa para nós e para quem nos olhar seja uma força e um exemplo. Porque isso nos une. Uma vez um padre me ligou, num dia, nossa, daqueles bem pesados. Ele me ligou para dizer que tinha pensado em mim o dia todo, e queria saber como eu estava. Ele falava e as minhas lágrimas escorriam pelo rosto. “Padre, o senhor me ligou numa hora em que eu estava tanto precisando de um colinho, de palavras que me dessem conforto. Eu não queria dividir para não deixar ninguém preocupado comigo.” Ele me disse para oferecer tudo o que eu estava passando para quem eu imaginar. Eu comecei a oferecer pelos meus filhos serem felizes, pelo meu marido, pelos meus pais, minha família, de repente quando eu vi o meu sofrimento estava leve, eu estava pensando em tantos amigos, nos padres e freiras, que eu me dei conta de que quando esquecemos de nós e amamos o outro, aliviamos a nossa cruz e a do outro também.

Eu me lembro de um dia que foi muito bonito, ele não conseguia ver que tinha uma mulher que tanto amava ele, os filhos que o adoravam, os amigos... Claro que ele sentia, mas não absorvia. O peso na cabeça era tão grande, ele não sabia como ia trabalhar, como ia educar os filhos, ser um bom marido. Como ia administrar essas coisas todas? E até aquela situação de se perguntar se a pessoa que está ao seu lado está por pena ou por amor. Todos esses dramas emocionais passam nas nossas cabeças quando estamos sofrendo. Eu me lembro quando perdi uma tia que era muito ligada à minha mãe, em São Paulo. Eu tinha medo de pegar avião com ele porque, às vezes, não tinham o equipamento para levantar a cadeira. Ele sabia do amor que eu tinha por essa tia, e pela minha mãe, eu não precisa nem falar. Ele me disse que íamos para SP, e eu fiquei naquela situação dizendo que a mamãe ia entender eu não ir, quando ele me disse que tinha ficado paralítico, mas não covarde. Eu acreditei nele, mesmo ele estando em depressão, tendo altos e baixos. Ele esqueceu dele e por amor a minha mãe e a mim, se colocou em ação. Nós fomos, mas eu não pude ficar e logo voltei. No avião estava o Roberto Carlos, por quem eu tinha admiração, e ele tinha feito uma música - “Luz que me ilumina o caminho, que me ajuda a seguir, essa luz, só pode ser Jesus” e tinha um trecho que falava assim “mão que me abençoa, me perdoa e afaga o meu coração”. Muitas vezes eu sentia o meu coração sangrando. Quando você vê o outro tão triste, você também fica. Por mais que eu tivesse alegria, tivesse fé, eu convivia sempre com aquele suspense “como o Thomaz está hoje?” “Como os meus filhos vão reagir?”; “Como as pessoas vão reagir?”; até para pensar em ir ao supermercado eu me preocupava em deixar o Thomaz sozinho. “Quando ele vai voltar a trabalhar?” “Como eu vou viver?” Eram muitas as interrogações - “Como eu vou adaptar o meu apartamento, o banheiro?” Eram tantas as decisões a serem feitas... e quando eu encontrei com o Roberto, no avião, eu agradeci por essa música que tem sido uma oração para mim. Antes de eu encontrar o Thomaz, eu punha a música e eu sentia o meu coração afagado, aquela luz divina comigo. Ela me dava uma paz. Quando eu agradeci, ele perguntou se nós tínhamos ido ao show dele. Eu disse que não, que o Thomaz tinha perdido a vontade de sair, de frequentar os lugares, e foi quando ele nos convidou, Thomaz e eu. Foi uma coisa incrível. Aqui eu faço uma reverência, pela bondade, porque ele viu um ser humano precisando de ajuda e de amor. Nós fomos como convidados dele, e não tivemos um empecilho. Ele, no palco, tira o crucifixo e canta essa música, - nessa hora ela suspira da emoção da lembrança - eu vi o Thomaz tocado, e logo em seguida o Roberto canta “além do horizonte tem que haver um lugar bonito para viver em paz, onde a gente possa encontrar a natureza, a felicidade e com certeza se você não vem comigo nada disso tem valor. O que vale o paraíso sem o amor”. Quando o Thomaz olhou para mim, ele tinha amor gratuito que não estava medindo perna, nada... lembro de como ele pegou a minha mão. Há tanto tempo a gente não pegava na mão. A gente muitas vezes, não dá valor para esses pequenos gestos. Ele se deu conta que tinha de graça uma mulher que era apaixonada por ele, que estava ao lado dele, ao lado dos filhos. Eu só dizia meu Deus, obrigada! Obrigada psicólogo Roberto Carlos! Você fez o meu marido ver quem ele tem do lado. São delicadezas que Deus nos dá. Foram anjos que Deus colocou ao longo do nosso caminho, com a imagem de Nossa Senhora que foi no hospital, padres espetaculares que nos deram apoio, não tenho palavras para agradecer. Padres largavam tudo para me dar carinho. Existem os médicos do corpo e os médicos da alma. Eu agradeço os médicos do corpo, mas os padres, foram amigos, foram presentes de Deus nas nossas vidas. O Thomaz começou a se agarrar muito com o padres, que ele via como bênçãos de Deus, como se fosse um fôlego novo. Faziam ele crescer e suportar o que ele tinha que suportar, mas que não tinha estrutura para suportar. Hoje, ele e eu, rezamos o rosário juntos diariamente. Eu sou enlouquecida por Nossa Senhora, eu falo que ela é maravilhosa. Obrigada pela minha mãe, obrigada pelo meu pai, em todas as palestras eu dedico a eles, porque eles me deram a fé. E com a fé eu vejo que posso alcançar tudo e ser testemunha do poder de Deus. Lembro-me quando o Papa esteve no Brasil e nós fomos convidados para dar o testemunho no Maracanã, eu pensei: Deus, porque não foi a minha mãe, que tem 10 filhos, minhas irmãs com 5, 4 filhos. Por que eu e o Thomaz? O Dom Eugênio olhou para mim e disse que era pelo menos porque nós não tínhamos perguntado por quê na hora da dificuldade. Porque a família brasileira é aquela que passa por dificuldades e pela fé supera todas elas. É esse testemunho, que aos olhos dos outros, meu marido continua paralítico. Algumas pessoas podem pensar, há ele ficou paralítico, mas voltou a andar, não é isso que Deus quis mostrar. Aos nossos olhos, a superação divina é muito além do que os olhos vêem. A tal ponto que outro dia eu cheguei em uma palestra e disse quando o meu marido era paralítico, aí tudo mundo começou a rir. Eu entendo a paralisia da mente. A paralisia da cabeça. É você que faz. Quando eu vejo nas minhas bodas de pratas, eu ganhei tudo – convite, missa, vestido, flores. Você já viu alguém ser convidado para suas próprias bodas? Eu não acreditei. Eu acho que é porque as pessoas estão com sede de verem pessoas que apesar de terem sofrido, superam pelo amor, pela fé e pela família. Quando eu entrei na Candelária e a vi lotada, eu pedi a Deus que entrasse na minha frente. Eu levei o meu terço na mão. Se eu estava entrando e vencendo foi graças ao meu Deus, pela intercessão de Nossa Senhora. Eu coloquei os meus filhos na frente, que eram nossos frutos e também por que eles estavam orgulhosos que apesar das dificuldades, estávamos reunidos, alegres e com fé.

Hoje em dia os casamentos não se mantêm por muito tempo. Vocês estão juntos há quanto tempo? Qual o segredo para vencerem além das dificuldades normais de um casal, ainda a bagagem do acidente?

Nas minhas bodas foi uma coisa muito bonita, porque eu tinha doze anos e meio com o Thomaz na cadeira e doze anos e meio sem a cadeira. Naquele momento, eu estava constando que o meu amor era o mesmo. Eu dizia para ele que falar “na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, amando e respeitando todos os dias da vida” é muito bonito, mas praticar é outra história. Na hora da dificuldade, que não foi de um dia, nem de um ano é importante renovar esses votos todos os dias. Quando me diziam que a minha vida tinha acabado, muito pelo contrário. Tem até aquela música “Amélia que era mulher de verdade”, tem gente que imagina aquela mulher acabada, triste. Para mim a mulher de verdade é aquela que acredita, aquela que não mede o peso que está nas costas, mas a força que vem de dentro que te faz ficar de pé. Que faz você sorrir independente do que estiver acontecendo. Meu Deus, você está me fazendo uma força e eu quero ser lixo? Não, eu jamais vou pensar pelo o que estou passando, mas o que posso estar fazendo por mim, pelos meus filhos, pela minha família. Eu também preciso dos outros para estar aqui. Eu vejo o exemplo dos meus pais, que fizeram agora 55 anos de casados. Eu fiz 30 anos agora esse ano. As minhas irmãs, uma está com 33 anos de casada, outra com 35 anos. Qual é o segredo? Só tem um: oração, compreensão, paciência e perdão. Confiar na força divina. Porque pela nossa força humana não conseguimos, arrumamos nossa malinha e pronto. Talvez eu não tivesse contando agora a minha história para você com happy end se eu não tivesse acreditado nisso tudo. Quando os pepinos aparecem, eu brinco sempre - tem happy end.

Para continuar o happy end, o Thomaz nas bodas de prata ganhou dos amigos um esqui, que foi mais um desafio, porque ele nunca tinha esquiado na água. Ele já tinha sido campeão solteiro na neve, mas nunca tinha experimentado na água. Os amigos disseram que como ele superava tudo, agora tinham mais uma novidade. O meu filho, que é um anjo da guarda do pai, conseguiu um técnico para ajudar ele, que nunca tinha dado aula para um paralítico. Fez com que ele conseguisse esquiar na Lagoa Rodrigo de Freitas, e ele virou campeão. Medalha de bronze na Austrália e na Bélgica. Até a viagem para a Austrália foi um desafio - 36 horas sem poder usar o banheiro. Eu brinquei que o campeonato começou desde a saída do Brasil. Não houve empecilhos. Até um deles quebrou a cadeira de banho. Não tínhamos mais cadeira. Tivemos que providenciar outra. Mas eu falo Maria, passa na frente e resolve isso. E ela resolve. Até em questão de idade. Eu dizia para os meus filhos - seu pai não tem a menor chance, só tem garotada. Thomaz nessa época estava com 53 anos. Quando eu vi ele no pódio, eu não me continha de felicidade. Quando chamaram delegação do Brasil, era só ele. Sabe o que eu fiz? Coloquei o uniforme para mostrar que no Brasil existe casal guerreiro, casal que está de pé, que apesar da idade e do pouco tempo de aprendizagem Deus nos deu a vitória. Quando eu cheguei para a Chiara e perguntei como ela queria o casamento dela, ela só me respondeu - Mãe, precisa mais? Eu vou entrar com o meu pai. Então eu lembrava de anos atrás quando disseram para mim que os meus filhos iam ter vergonha do pai. Eu até tinha visto aquele filme “O Pai da Noiva”, e pensei comigo será que o maior milagre vai ser o Thomaz andar, e até o casamento da Chiara ele estar andando, com a minha oração? Eu descobri que o maior milagre é a filha ter orgulho do pai, e o meu marido apesar da cadeira de rodas entrar sorrindo, amando e confiando e querendo usar da vida dele para todos que passam por algum revés acreditarem que nenhum revés pode ser maior que o amor e a alegria que Deus nos dá. Então eu falo, não peço mais que ele ande, porque ele está andando com o coração e a cabeça. Cada um tem seu trauma, tem seu problema, o importante é olhar para frente, caminhar, e deixar Nossa Senhora na frente que ela traz Jesus. Ele vai arrumar uma solução, não sei se hoje, mas amanhã. Olha aí o meu happy end, e vou continuar tendo muitos outros happy ends. Estamos indo para a França agora em setembro para outro campeonato. A delegação, eu e ele. Já preparei o uniforme, com bonezinho na cabeça e tudo.

É uma emoção muito grande. Ele já disse que é um empresário de Deus e um esportista, que tem a graça divina como maior aliado, maior patrocinador. O que eu fiquei muito contente foi que na hora que ele começou a esquiar ele delegou a nossa loja - Agnus Dei, para o meu filho. O meu pai e a minha mãe acreditaram tanto que o Thomaz um dia ia ser um testemunho, que eles resolveram patrocinador o esporte. Então o meu marido, para minha honra, esquia com o meu nome de solteira - Trussardi. Ele acreditou nessa intercessão, muito mais que financeira, mas de família que reza e permanece unida. Quem patrocinou a minha fé e a dele foi a minha criação.

*Anna Gabriela Malta, designer, fotógrafa, membro do Conselho Editorial da revista Jesus Vive e do Conselho de Cultura da Arquidiocese do RJ.






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